CORAÇÃO LIBERTO

 

CORAÇÃO LIBERTO

Inglês

SINOPSE

A vida da personagem muda de maneira brusca e inesperada quando sente a necessidade de viver com sua filha na velhice. Enganada pela mesma, cujo interesse é o dinheiro da venda do apartamento, sofre um AVC ao saber que vai viver em um asilo.
Passa então a viver de lembranças, alternando-se períodos da realidade e sonhos...
Permanece em coma por três anos. Quando acorda, ainda não está pronta para perdoar. Sofre muito, mas a misericórdia de Deus vem em seu socorro, dando-lhe a redenção.
Os Sonetos Completos do escritor português Antero de Quental, são intercalados na história de tal forma que o leitor, mesmo que não goste de seu estilo poético, acaba por apreciá-los pela maneira suave que são apresentados.

A minha querida mãe
ANTONIETA DE JESUS
(dorme teu sono e descansa na paz de Deus)

NOTA DO AUTOR

É uma obra de ficção, qualquer pessoa que se identificar com algum personagem, é pura intensão...
Esta história tem dois lados: o abandono na velhice e a redenção.
É uma proposta desafiadora, precisa-se de uma estratégia: pegar todo negativismo e usar como combustível. Faz-se necessário ir se remodelando pouco a pouco, quebrando as barreiras...
Ao mesmo tempo em que mostra a cruel realidade dos idosos no Brasil, faz um tributo ao poeta português Antero de Quental, intercalando seus poemas completos.

Levanta-te e anda

As sensações

No primeiro dia, as sensações se aguçaram. Meu Deus! Elas iam e vinham aumentadas de modo avassalador! Eu só queria ficar quietinha em meu canto, como um vegetal, sem nada sentir, ignorando o que se passava à minha volta.
O que e isto? Ouço vozes estranhas e familiares. Sinto ao mesmo tempo, sensação de revoltante abandono e amorosa acolhida. Continuo de olhos fechados. Por motivo algum hei de abri-los. Mas as sensações continuam intermitentes: ora terríveis, ora prazerosas.
Ouço passos em minha direção. Permaneço sem mover um único músculo. Somente pode-se perceber que ainda estou viva pelo movimento continuo da respiração que não sei como controlar.
Sinto o roçar de um beijo na testa seguido pela voz de minha filha que sussurra ao meu ouvido: fique com Deus!

A fada negra

E beijou-me em silencio, longamente,
Longamente me unio à face fria...
Oh! Como a minha alma se estorcia
Sob os seus beijos, dolorosamente!
Antero de Quental - sonetos completos

As sensações são impelidas violentamente em turbilhões: raiva, revolta, decepção, auto-piedade, tristeza, angústia, desalento, amargura, dor, saudade, abandono, incapacidade, confusão, tormento, nostalgia, ódio, incredulidade, medo, furor.
Que sensações são estas, capazes de fazer tremer meu corpo inerte? Tremor transformado em fúria, percorrendo cada célula nervosa!
-Depressa, chamem o médico, ela está tendo uma convulsão!
Havia um campo de energia de tamanha proporção que desorientava as enfermeiras.
De repente o telefone que estava na mesinha de cabeceira começou tocar num volume ensurdecedor e saiu do gancho de maneira inexplicável. Na confusão e gritaria que se seguiu ninguém deu importância ao fato ou tentou entender o que se passava.
-Ajudem a segurá-la.
O médico chegou apressadamente e perguntou:
- O que houve, porque ela está desse jeito?
A filha que havia voltado, comentou irônica:
-Não é nada, ultimamente ela tem estes ataques para chamar a atenção, pois não quer ficar aqui, onde poderá ser tratada com muito mais eficiência do que em casa.
O médico aproximou-se pedindo seu prontuário e administrou um calmante.
-Não tenha medo, está entre amigos, cuidaremos bem de você.
Sua voz era suave transmitindo um amor filial.
A calma retornou vagarosamente, devolvendo-me a sanidade.

Os anjos são enviados com o objetivo de mostrar aos filhos de Deus o Seu amor.

Continuo de olhos fechados. Pressinto onde estou: Asilo São Vicente. Já ouvira em outra ocasião que haveria de ficar neste lugar, para ser cuidada pelo resto de meus dias.
Palavras são substituídas para não causarem impacto: asilo por exílio, zelo por abandono.
Novamente a voz familiar e preocupada:
-Por favor, cuidem dela, manterei contato.
-Pode deixar se houver algum problema, avisaremos.
Depois disto, ouvi apenas o som de saltos de sapatos ecoando pelo corredor.
As enfermeiras afastaram-se também para conversar sem que pudessem ser ouvidas:
-O que foi aquilo no telefone?
-Parecia alguma coisa paranormal.
-Não sei, não acredito nestas coisas, mas foi muito estranho.
-Nem quero falar sobre isto, o que eu não compreendo, prefiro ignorar.
- O dia foi muito complicado, o melhor que podemos fazer e ir para casa descansar.
- Boa noite e até amanhã.
Foi demais para um só dia, adormeci como um bebê, sentindo o cheiro de sabonete após o banho refrescante, o macio de roupas limpas, o aconchego das cobertas quentinhas, o sabor da sopa que foi gentilmente servida em minha boca.
Novamente o turbilhão de novas sensações: entrega, cansaço, bem-estar, conforto, amor, saudade, alegria, gratidão, benevolência, liberdade, paz...

Sinto-me livre apesar de aprisionada em meu próprio corpo.

Não sei quanto tempo dormi. Uma demora indefinida e reconfortante que se denomina: ETERNIDADE.

Dorme teu sono, coração liberto,
Dorme na Mão de Deus eternamente!
(Antero de Quental, Sonetos, p.183)
O que está acontecendo? Qual a causa deste bem-estar inesperado?
Por que não consigo movimentar um único músculo e a mente está tão lúcida?
Alguma coisa estranha ocorreu na memória também: lembranças antigas visitam meus pensamentos causando nostalgia. A imaginação viaja livre e solta.
Por que sonetos de um escritor português do século XIX me veem à mente reportando-me no tempo e no espaço ao internato do colégio católico para moças onde vivi por vários anos?
Estudávamos a literatura portuguesa e brasileira com afinco, e sinto saudades do professor que nos obrigava conhecer todas as correntes literárias, bem como cada obra
dos autores que as representavam.
Sou grata a ele, pois agora posso embarcar em um mundo paralelo de devaneios (ou delírios) da mesma forma que estas obras me arrastavam em fantasias.
Sua voz calma e grave ressoa pela sala de aula:
-Meninas, hoje estudaremos a obra de um escritor português: Antero de Quental.
Pesquisem sua biografia e corrente literária destacando a principal obra.
Naquele tempo não existia computador. As pesquisas eram feitas na própria biblioteca do colégio.
Procurei fazer naquela mesma tarde.
Fiquei impressionada com a biografia.

Revolucionário, místico, socialista.

O mundo está mudando. A Europa vive momentos de grandes transformações. Há uma verdadeira explosão científica. Ele destaca-se entre um grupo de jovens estudantes que se transforma em pensadores, artistas, historiadores, escritores, poetas.
Sua obra revela inconformismo face à inércia e conservadorismo português diante da situação social, política e cultural de sua época. A poesia expressa a angústia de quem busca o sentido da existência. O socialismo baseia-se na evolução pacífica e na moralidade.
Seus poemas retratam a condição humana de fragilidade e dúvidas quanto aos mistérios da criação, da morte e de Deus. É continuamente atraído pela morte que torna-se motivo dominante de sua obra.
Portador de Distúrbio Bipolar entrou em estado de depressão permanente. Convenceu-se que o Universo era um sofrimento sem finalidade e que tudo caminhava inexoravelmente para o nada. Suicidou-se num banco de Jardim junto ao Convento da Esperança, onde está escrito na parede a palavra ESPERANÇA.
Que tipo de doença é esta que pode levar uma pessoa ao suicídio e até hoje continua causando perdas irremediáveis?
Vincent Van Gogh, um dos maiores pintores impressionistas de todos os tempos também sucumbiu a ela.
Nos dias atuais há tratamento psicológico e remédios, no entanto, naquela época as opções eram mínimas. Nesta precariedade havia apenas uma saída: a morte.
O Lítio ainda não fora testado. O incrível é que os médicos do Império Romano encaminhavam seus pacientes com mania e melancolia para uma estação de águas rica as neste minério. Mesmo desconhecendo a existência desta substancia, percebiam que ali eles melhoravam.
Até mesmo um padre católico, com sua vida fundamentada no reino de Deus e acreditando cegamente na vida eterna, sofre com a doença. Neste caso em particular, a causa principal está ligada ao emocional: à mente, aos sentimentos, à afetividade.
A pessoa lida com toda espécie de sofrimento e miséria humana, então incorpora tudo de modo somático e destrutivo. É denominada doença psicossomática. Além dos sintomas físicos que causam sofrimentos, dores, feridas, descontrole orgânico caracteriza-se por uma depressão profunda que culmina em pensamentos suicidas. Em busca da cura ou alívio o doente se depara com dificuldades e insucessos.
A depressão associa-se a várias doenças. No caso de Robin Williams, comediante maravilhoso, começou com sintomas de mal de Parkson. Deprimido suicidou-se solitário não conseguindo manter sua tristeza escondida por trás de suas comédias.

NO TURBILHAO
No meu sonho desfilam as visões
Espectros dos meus próprios pensamentos
Como um bando levado pelos ventos
Arrebatado em vastos turbilhões.
Antero de Quental (sonetos completos)

O que aconteceu comigo? Por que estou neste lugar? Ainda há pouco eu estava no colégio e agora me encontro neste pobre leito um lugar desconhecido, com o espírito perturbado pela amargura. Neste turbilhão de pensamentos minha mente vaga angustiada.
Algo imprevisível aconteceu que mudou radicalmente a minha vida. Eu apenas sabia de uma coisa: era para estar na casa de minha filha.
Meus amigos do grupo de terceira idade vieram se despedir. Eu havia preparado um café com variadas delícias para acompanhar. Estava feliz e ria de qualquer bobagem.
Marta, minha melhor amiga, questionava:
-Você precisa mesmo ir? Eu ainda acho que devia ficar. Nossa cidade e pequena. Temos um grupo de amigos maravilhosos. Vamos sentir sua falta. Você esta indo para muito longe e vai ser impossível irmos visitá-la, tanto pela distancia quanto pela questão financeira.
- Eu sei minha amiga, assim que puder virei passar algum tempo aqui. Agora só peço que compartilhem a minha alegria. Vou viver com minha filha e netos, estou ficando doente e preciso do amor deles. Além de tudo, já vendi o apartamento com todos os móveis e utensílios.
- Você vai comprar outro? Perguntou desconfiado meu querido amigo Jorge, fiel conselheiro.
-Não, meu amigo, a casa de minha filha e enorme e vou ficar com eles. Vou guardar este dinheiro para poder viajar, comprar remédios e outras necessidades, talvez até contratar alguém para ajudar minha filha quando eu não puder mais ajudá-la.
-Mas, onde está este dinheiro agora?
- Está em boas mãos meu amigo.
- E se você decidir voltar?
- Ela me devolverá certamente.
-Tem certeza de que isto vai funcionar?
-Absoluta. Ela prometeu. Não tem como falhar.
No dia seguinte iríamos embora. Não conseguia conciliar no sono de tanta excitação. Precisava descansar bastante, pois a viajem seria longa. Tudo estava perfeito. Beatriz preparou um chá com torradas e ficou acordada um pouco mais, verificando todos os detalhes da viagem.
Minha querida irmã Gabriela irá conosco até o aeroporto. Sempre fico nervosa quando vou de avião, desta vez parece ser a minha primeira viagem.
Estava tão feliz e animada!
-Boa noite, minha filha, obrigada pelo chá, agora vou dormir em paz.
Tudo vai dar certo.

Acordando
Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta
Este meu vão sofrer; esta agonia,
Como sobe cantando a cotovia,
Para o céo a minh’alma sobe e canta
Antero de Quental – sonetos completos

Uma letargia apoderou-se lenta e profundamente de meu corpo cansado. É um bom sinal!
Estou novamente em nossa casa maravilhosa comemorando o décimo aniversario da pequena Beatriz. A casa está repleta de amigos que aproveitam a tarde morna de dezembro desfrutando da farta comida servida com bebidas caras. Todos os parentes, avós, tios e primos chegam trazendo presentes. A comemoração dura a tarde toda e avança pela noite adentro. Muitos vão pernoitar, pois vêm de outras cidades.
Foi divertido, mas à noite estou exausta. Nada melhor que uma boa noite de sono. Eu não pretendia ter ficado acordada até tarde, mas os convidados demoraram a sair.
Amanhã teremos um dia cheio! Vamos nos preparar para as férias em nossa casa de praia. Fazemos isto todos os anos nesta época. Só retornamos na véspera de Natal. Então tudo se repetirá: amigos e parentes reunidos, muita festa, comida e bebida à vontade, alegria, música, presentes...
Tudo é planejado com antecedência. Logo no início do ano: um cruzeiro pelo litoral com todos os nossos amigos, depois curtir as praias de Fortaleza e tudo de bom que a cidade oferece.
Vencida pelo cansaço, sentei-me no balanço de madeira, desses que cabem apenas duas pessoas, muito comum nas varandas e jardins de casas de classe média alta.
O jardim atrás é fabuloso! Amplo e bem cuidado. Suas variadas plantas mostram o cuidado e esmero do jardineiro, que está na família a mais de vinte anos. Isto reforça a ideia de que se trata de uma família de posses. A enorme casa acomoda muitos convidados, justificando a tradição das festas de natal.
Bia sentara-se bem pertinho com a cabeça apoiada em meu ombro. Seus olhos eram doces como chocolate ao leite servido quentinho em noite de inverno. Lembrava um anjo. Loirinha, cabelos lisos como seda, olhos verdes, nariz e boca perfeitos. Sua imagem era positiva: meiga, inteligente, educada. Usava um vestido de festa deslumbrante como o de uma princesa. Eu o comprara quando fomos aos Estados Unidos passear em Orlando nos parques Walter Word.
Afaguei-a carinhosamente. Estava tão fatigada que adormeceu ali mesmo.
A mais perfeita definição de Deus que eu poderia dar neste momento seria: Amor Incondicional!
No dia seguinte, a viagem de férias. Bia e os primos ficaram até depois do jantar abrindo todos aqueles presentes.
- Muito bem, crianças. Agora chega de brincadeiras e gritaria! Vamos dormir, pois sairemos de madrugada.
Cá vela, como d’antes, ao meu lado...
Os meus cantos de luz, anjo dourado,
São sonho só, e sonho o meu amor!
Antero de Quental- sonetos completos

Tormanto do Ideal
Conheci a Belleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés da terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao por do sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à forma, em vão, a idea pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura.
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o baptismo dos poetas,
E assentado entre as formas incompletas
Para sempre fiquei pallido e triste.
Antero de Quental – sonetos completos

De repente tudo muda. O passado fica mais perto, depois mais distante. Na aflição tento fugir da realidade, viajar na imaginação, não obtendo êxito desta vez. A realidade se apresenta nua e crua. Uma profunda sensação de medo envolve todo meu ser.
Neste momento, o melhor a fazer é manter a lucidez!
A confusão vai se dissipando lentamente. Começo a observar o ambiente e as pessoas. Foi de longe, o momento mais horrível de minha vida. Estou no quartinho pobre, porém limpo. A cama é de ferro pintada de verde clarinho com lençóis brancos impecáveis, no entanto o cheiro de urina impregna todo ambiente.
Na parede branca Jesus crucificado me olha direto nos olhos desnudando toda minha alma.

Na Capella

Na capella, perdida entre a folhagem,
O Cristo, lá no fundo, agonizava...
Oh! Como intimamente se casava
Com minha dor a dor daquela imagem!
...
Fitavamo-nos mudos—dor igual! --
Nem, dos dois, saberei dizer-vos qual
Mais pallido, mais triste e mais cansado...

Antero de Quental - sonetos completos

Consigo ficar num mundo à parte: irreal e metafórico. O barco está afundando em um mar revolto e frio, porém estou em uma concha protetora como uma tartaruga em sua carapaça. Neste isolamento vou vivendo de lembranças que vêm e vão como um disco arranhado.
Às vezes abro os olhos e vejo na parede Jesus crucificado. Se o mesmo houvesse acontecido comigo, pelo menos seria mais rápido.
A realidade, no entanto, teima em voltar implacável, amedrontadora, irreversível.
Por que estou viva afinal se não posso ter uma vida?
Imóvel, espero o fim que não chega. Nesta espera angustiante, não consigo reprimir as emoções, sou tomada por um terrível sentimento de revolta. Tento articular algumas palavras. Nada... Nenhum som!
Jesus olha para mim com benevolência e sorri, mas não consegue me acalmar.
Descontrolada, tento gritar:
-Por quê? Por que eu? Não quero viver assim! Por que meu Deus?
O silêncio é desafiador...
Ele ouviu, mas continua me olhando compassivo. Sinto apenas uma lágrima correr pelo rosto e uma mão amiga tentando ajudar.
- Calma, foi apenas um pesadelo! Volte a dormir. Amanhã tudo será diferente!
- Que diferença faz o amanhã...
Mas, se é assim que deve ser só me resta esperar! Há coisas na vida que você pode fugir e outras que você deve encarar. Tento conservar o equilíbrio para conciliar no sono outra vez.

Por que esperaes: Nessa amplidão sagrada
Que soluções esplendidas se escondem.
Porém os astros tristes só respondem:
À noite, a escuridão, o abysmo, o nada!
Antero de Quental- sonetos completos

Ainda atordoada pela noite mal dormida, vejo os primeiros raios da manhã por debaixo da porta. Aos poucos começa o movimento cotidiano. Reluto em abrir os olhos, mas acabo decidindo por abrir. As pessoas se movem ruidosas em suas tarefas diárias.
A voz carinhosa de minha colega de quarto não deixa dúvidas:
- Bom dia, que bom que você acordou! Eu já estava ficando preocupada!
Eu conheço esta pessoa de algum lugar! Tentei abrir a gaveta da memória. Tirei de lá lembranças empoeiradas. Uma lembrança distante, parada no tempo: Celina! A babá de minha filha. Trabalhou comigo por muitos anos. Sempre amável.
Era o destino me pregando peças novamente. Começo a sentir emoções e sentimentos contraditórios. Uma paz inesperada me envolve. A voz amiga soa como a de um anjo. Está sorrindo serena e solidária.
Como isto é possível?
Neste lugar todos sorriem para você sem desejar nada em troca. A sua solidão se desfaz com os gestos de solidariedade. Minha companheira de quarto está cuidando de mim com carinho de uma verdadeira filha.
Ela não parece doente. Por que estaria aqui?
Trabalhou a vida inteira, será que não conseguiu um lugarzinho só seu?
Aspirações
Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor e até parece
Que o foco interior já desfalece.
E vacilla com raios duvidosos
Antero de Quental- sonetos completos

Arrebatada de forma tão inesperada vejo o mundo lá fora envolto em uma nuvem negra. Preciso de tempo e coragem para digerir a cruel realidade.
O tempo passa vagaroso... Às vezes para...
As horas são iguais, diferenciadas pelo movimento de acordar cedo e do café da manhã. O calor do sol e o aroma do café transmitem bem estar.
Posso sentir o mudar das estações. Tudo é perceptível. Às vezes uma brisa refrescante num amanhecer quente e outras vezes um friozinho gostoso aquecido pelos raios de sol.
Hoje especialmente o ar está carregado de cheiro de flores. Deve ser primavera. Posso separar nitidamente as estações.
Outrora, as mudanças serviam apenas para determinar os passeios e compras compulsivas. Exagerava tanto que precisava de ajuda para levar tudo para dentro de casa. O closet abarrotado não comportava mais nada. Eu teria que me desfazer de muita coisa, o que sempre ficava para depois. Minha agenda estava sempre cheia. Talvez amanhã, quem sabe...
Agora, só necessito de um pequeno móvel com dupla função: serve de criado mudo e nas gavetas guardo meus escassos pertences.
Quando cheguei as pequenas gavetas ficaram abarrotadas. Trouxeram muitas roupas caras que foram sumindo inexplicavelmente, segundo o comentário indignado de minha irmã.
Nada disso faz diferença, não voltarei a usá-las...
As visitas são liberadas. Vêm em bando invadindo o quarto, movidos pela curiosidade...
Coloco-me então sob a proteção de minha imobilidade para me defender dos comentários e da falsa piedade. Consigo criar um refúgio, mesmo que pequeno, como um oásis no deserto: abro os olhos somente para as pessoas mais íntimas. O resto é mera curiosidade.
Tento enfrentar com coragem a humilhação e o vazio profundo que se abriu pela falta de comunicação. Permaneço ali exposta como animal em um circo à mercê de curiosos ou inimigos. Posso até ouvir seus pensamentos:
- Como uma mulher na sua posição, pôde ficar neste estado?
- O que a vida reserva para alguém que teve tudo que quis?
É evidente que nem todos agem assim. Alguns amigos verdadeiros chegam consternados e demonstram compaixão. Meus sentimentos, no entanto, são ambíguos. A fraca e incerta percepção tenta separar o joio do trigo.
Fico assim aconchegada em meu refúgio, cumprindo minha pena. Na alma a dor está sob anestesia.

Nirvana
Viver assim, sem ciúmes sem saudade,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidade,
Deixando pelo chão rosas e espinhos,
Antero de Quental – sonetos completos

Amanhece. Mais um dia começa. Ouço os passarinhos que voam e cantam para homenagear os primeiros raios de sol. As cortinas são abertas, o sol invade o quarto acariciando minha pele pálida. Recolhida no silêncio ponho-me a meditar:
- Que bela manhã de sol! Os dias estão ficando mais frios. Nesta época, em junho estarei completando sessenta e cinco anos.
Fragmentos do passado surgem como um clarão repentino por trás da cortina do esquecimento, quando de olhos fechados fico a ouvir conversas. Despreocupados, pensam que estou dormindo.
- O que houve com ela?
- A princípio um AVC seguido de uma queda. Bateu a cabeça violentamente. Vamos submetê-la a uma ressonância magnética para comprovar se seu diagnostico é a Síndrome do Encarceramento.
- Que síndrome é esta?
-Nesta doença, o paciente fica preso dentro do seu próprio corpo, sem conseguir se movimentar ou comunicar, porém mantém- se consciente e intelectualmente ativo. As informações são emitidas do cérebro para o corpo que não responde às ordens.
Conhecida também como Síndrome de Locked-in, é uma doença neurológica rara, em que ocorre paralisia de todos os músculos do corpo, com exceção dos músculos que controlam o movimento dos olhos ou das pálpebras.
-Tem cura?
-Não, mas existem procedimentos que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Para facilitar a comunicação são utilizadas tecnologias e máquinas que conseguem traduzir através de sinais, como piscar de olhos, o que a pessoas está pensando. Tem sido usada também a estimulação dos reflexos musculares com elétrodos, que consiste em pequenos choques elétricos nos músculos para reduzir sua rigidez.
- Ela apresenta tais sintomas?
- Os sintomas são parecidos.
-Ela parece ter melhorado um pouco.
- Sim, mas o prognóstico da doença é bastante reservado. É muito raro alguém conseguir recuperar alguma capacidade motora e movimento dos músculos. A maior parte dos indivíduos morre no primeiro ano após ter surgido a doença.
-Onde ela estava quando adoeceu?
-Numa casa de repouso no sul, na cidade onde mora sua filha.
-Por que está aqui então se lá tem mais recursos?
-Ela foi ficando cada vez pior, então a filha resolveu fazer sua vontade. Quando ela chegou, já havia melhorado bastante. Conseguia digerir alimentos líquidos ou pastosos, pois haviam tirado os tubos de alimentação. Ganhou um pouco de peso e parecia mais saudável, no entanto, não conseguia ainda movimentar os músculos, podendo somente abrir os olhos.
Só consegui ouvir o inicio da conversa, pois foram afastando-se discretamente...
Tudo ficou mais claro. Então foi isto que aconteceu?
A memória vai retornando embaçada...

Dentro de meu coração, n’esse momento,
Fez-se um buraco enorme—e n’esse abysmo
Senti ruir não sei que cataclismo,
Como um universal desabamento...
Antero de Quental – sonetos completos

Os que amei onde estão?
Com os mortos

Os que amei, onde estão: idos, dispersos,
Arrastados no gyro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos...

E eu mesmo, com os pés immersos,
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ella, aqui e ali, vultos submersos...

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei: vivem comigo.

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

Antero de Quental – sonetos completos

A tormenta sacode o barco violentamente, depois se acalma. Embalado pelas ondas meu barquinho desliza arremessando-me para outra realidade ou outro sonho talvez.
A casa de minha filha é maravilhosa: de frente para o mar.
A viagem foi longa e cansativa, mesmo assim estava muito feliz.
Meus netos receberam-me carinhosamente apesar de não termos convivido muito ultimamente. Já estão crescidos: Victor de quinze anos está no ensino médio. Caladão, vive desconectado do mundo, com seu tablet da mais moderna tecnologia. Se alguém quiser comunicar-se com ele que seja por este meio.
Carol completou dezoito anos e vai para a faculdade. Ao contrário do irmão, é extrovertida, independente, fala muito. Tem namorado e seu próprio carro.
Meu genro muito amável veio nos receber dando as boas vindas.
Depois do jantar, ficamos algum tempo conversando. A noite estava quente e agradável. Pensamentos corriam na minha mente e naquela hora, via o futuro com otimismo...
Assim a vida passa vagarosa:
O presente a aspirar sempre o futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa.

Antero de Quental- sonetos completos

No dia seguinte, tudo parecia normal, no entanto, o que pode dar errado vai dar errado... O tempo estava chuvoso e frio. Indisposta, queria ficar descansando, mas fomos passear pela cidade. Eu não queria contrariar minha filha que fazia questão de sair. Depois do almoço no centro fomos para o subúrbio. Estacionamos em uma espécie de chácara, num lugar bonito, porém um pouco deserto. Havia muitas árvores e a enorme casa lembrava uma escola.
-Vamos conhecer o lugar. É aqui que você vai ficar.
-Filha, pelo amor de Deus! Pensei que iria ficar com vocês!
-Você sabe perfeitamente que não tenho tempo de cuidar de você, trabalho o dia todo.
-Porque não me avisou?
-Você é muito geniosa e não aceitaria vir.
-Mas eu tenho o direito de escolher onde ficar!
-Afinal, não é o fim do mundo, é apenas uma casa de repouso para idosos. Você vai gostar.
-Por que isto agora? Eu poderia ter ficado onde estava e ter me virado muito bem.
- Eu prefiro assim, você estando mais perto eu posso saber o que se passa.
-Eu não quero ficar aqui sozinha.
-Você não ficará sozinha, há muitas pessoas de sua idade para se relacionar. Além disto, há uma equipe profissionais: médicos, psicólogos, fisioterapeutas, etc.
-Por favor, filha, eu quero voltar.
-Agora é tarde, o que está feito, está feito.
Há pessoas que provocam incêndio e há outras que apagam. O fogo devastou toda minha alma. Uma dor lancinante atravessou meu coração. Morri por dentro. Sem saída, senti uma desconexão. Uma tinta preta caiu sobre meus olhos. Tudo ficou escuro. Na queda, bati a cabeça com muita força. Houve um grande alvoroço!
Ninguém esperava que sobrevivesse mais um dia, no entanto, como por um milagre vários dias se passaram. Tive alta do hospital e fui levada ao exílio...
Contudo, alguma coisa estava errada. Não podia me mexer. O cérebro ordenava, o corpo não obedecia. Nesta condição, tudo o que se pode fazer é nada!

Só males são reaes, só dor existe;
Prazeres só os gera a phantasia;
Em nada, um imaginar, o bem consiste,
Anda o mal em cada hora e instante e dia.
Antero de Quental - sonetos completos

A dor está me testando! Quando tento escapar, para onde quer que eu olhe, ela está lá: implacável e impiedosa mostrando a realidade cruel.
Havia atravessado penosamente o primeiro mês de minha estadia ali; ora lúcida dividida entre o pesar e a dor, ora flutuando em uma nuvem de sonhos e devaneios.
Ninguém imagina como se consegue viver assim... Agora via o mundo de maneira diferente, vasculhando os recantos mais obscuros de minha imaginação.
Fazia reflexões amargas, alimentando ódios, ressentimentos, vingança...
Comecei a me odiar, a odiar a vida...

NO CIRCO
Muito longe d’aqui, nem sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando...

Cahi e achei-me, de repente, involto
Em lucta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer n’essa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
--È assim que rujo entre leões agora!
Antero de Quental - sonetos completos

Foi um grande período de luta e busca interior. Tive muito tempo para pensar!
O que o futuro reserva para mim?
Eu não pertenço a este lugar, mas quem sou eu para questionar o destino! Preciso aceitar as limitações por mais doloroso que seja...
E se meu caminho fosse diferente? Tudo parecia perfeito, então o que me fez mudar a trajetória?
O caminho vai em linha reta, se houver uma bifurcação, temos que fazer a escolha, mas nem sempre somos nós . Às vezes somos arremetidos contra a vontade.
A rejeição, especialmente daqueles que amamos pode nos arrastar para a escuridão!
Parecia um abismo, um poço sem fim...
Tento em vão sair voando da Fênix desta pobre e patética vida... Como uma ave presa, impedida de abrir as asas e voar, impedida de ver o céu, apenas sentindo o nascente e o poente...
Mergulho em minha cova rasa - sem sonhos, sem desejos, sem esperança...
A realidade diante dos olhos e ao alcance dos ouvidos é o rumor banal da vida sem sentido, à espera da morte.

N’esta viajem pelo ermo espaço,
Só busco o teu encontro e o teu abraço,
Morte! Irmã do amor e da verdade!
Antero de Quental - sonetos completos

Por vários dias clamei pela morte e poderia morrer assim: simplesmente dormindo, despojada do passado. Então não haveria mais dor, nem saudades, nem lembranças.
Nos limites da loucura pensei em suicídio, o que seria muito simples se tivesse domínio de minha vontade.
Confinada em meu corpo, não podia matar a alma. Os pés e as mãos disformes que inspiram piedade e respeito são inúteis.

Estava tão destruída que meu coração virou pedra e renunciei à vida.

Nem queria respirar para que o ar não penetrasse em meu corpo magro e envelhecido. Estava quase irreconhecível. No entanto, a essência, a alma, o espírito, mesmo que aprisionados permanecem inalterados. O que você é continua intacto, ainda que as deformações e as misérias queiram destruí-la por dentro.
Se pudessem sondar a minha alma veriam que ainda sou eu mesma: altiva, orgulhosa, independente. Sempre tive um espírito livre e criativo...
Agora, porém, as atuais circunstâncias conseguem delinear traços de um temperamento agressivo, desagradável e rude que eu desconhecia até então...
Tornei-me uma pessoa terrível! Para a sorte dos que lidam diariamente comigo, não consigo mostrar tais atributos somente pelo olhar...
O pior que faço é torturar a mim mesma. A tentativa de não engolir os alimentos foi em vão. Quando acordei estava sendo alimentada por um tubo ligado diretamente ao estômago e os remédios administrados na veia.

Voz interior

Embebido n’um sonho doloroso,
Que atravessam phantasticos clarões,
Tropeçando num povo de visões,
Se agita meu pensar tumultuoso...

Com um bramir de mar tempestuoso,
Que até aos céos arroja os seus cachões,
Atravez d’uma luz de exhalações,
Rodeia-me o universo monstruoso...

Um ai sem termo, um trágico gemido,
Echoa sem cessar ao meu ouvido,
Com horrível, monótono vaivem...

Só no meu coração, que sondo e meço,
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
Em segredo protesta e affirma o Bem!

Antero de Quental - sonetos completos

Eu vos darei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei de vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Ez 36, 26
Deus certamente escreve certo por linhas tortas... Quando nos sentimos completamente vazios, um nada absoluto, Ele mostra que o rico estrume pode fertilizar o solo e alimentar milhões de pessoas.
Às vezes nos achamos fortes e capazes demais até que uma doença ou a morte bata à nossa porta. Então o sofrimento, a ingratidão, a solidão e a dor afogam e perturbam nossas faculdades nobres do espírito. Primeiro vem a revolta contra tudo e contra todos... Até mesmo contra Deus. Ressentida, ponho-me a desafiá-lo:
- Até quando Senhor? Eu não mereço tudo isto. O que fiz de mal?
Ele, no entanto, fita-me com ternura sem nada dizer...
Olho para aquele corpo dolorido pregado na cruz, mas continuo com minha crueldade:
- Você está assim porque quis, como filho de Deus poderia ter evitado...
-Queria salvar a humanidade? O que recebeu em troca?
Afundada no mar do desespero, aparece um bote salva-vidas: vejo uma luz muito branca e infinitamente brilhante aproximar-se. Ao longe apenas vozes tentando me reanimar. Sinto nitidamente a consciência da morte. É a sensação da vida deixando o corpo... Entro em um túnel e não tenho certeza se estou andando ou flutuando. Conectada à luz branca e suave sou envolvida por uma paz infinita... Segmentos de minha vida passam diante de meus olhos. Um momento como este vem da experiência da morte.

Passaram-se dias, meses, anos, uma eternidade...
O que diz a morte

Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim os que padecem;
E os que cheios de magua e tédio encaram
As próprias obras vans, de que escarnecem...

Em mim, os soffrimentos que não saram,
Paixão, Duvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da dor, que nunca param,
Como n’um mar, em mim desapparecem. - -

Assim a morte diz. Verbo velado,
Silencioso interprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria.

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.
Antero de Quental - sonetos completos

“Nada muda o ser de Deus! Na verdade, a sua ira é a projeção dos sentimentos do ser humano. Enquanto estivermos irados conosco mesmos, Ele nos parecerá irado. No entanto, basta passamos por uma experiência profunda de libertação que compreenderemos Deus como realmente é: infinita bondade. Ainda hoje muitos pensam que Deus castiga, quando na verdade Ele só intervém na história para trazer vida. São as próprias pessoas que se castigam, se esvaziam, correndo atrás do vazio (cf Jeremias 2,5)”

Levanta-te e anda!

A um poeta
_Surge et ambula_!
Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da lucta e do fragor terreno,

Accorda! É tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir dos seios d’esses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e as vozes de rebate!

Ergue-te pois soldado do futuro,
E dos raios de luz sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!
Antero de Quental – sonetos completos

O coma durou três anos...
O despertar foi com uma musica suave. Ao longe, os acordes aqueciam minha alma. Parecia um coro de Serafins...
A consciência foi voltando lentamente. Consegui abrir os olhos e ouvir.
-Chamem o médico! Ela está acordando!
Sempre solícito e amável, ele chegou apressado. Fez algumas perguntas e para sua surpresa, notou que eu podia movimentar lentamente os dedos das mãos e balbuciar algum som ininteligível.
Muito satisfeito, orientou vários procedimentos às enfermeiras e retirou-se.
Eu nunca tinha vivido tantas sensações novas em tão pouco tempo.
A vida não parava de me surpreender...
Aos poucos, vou reconhecendo o ambiente: tudo está como antes...
Celina emocionada abraça-me com a voz embargada:
- Meu Deus, parece um milagre!
As enfermeiras são as mesmas. Enquanto cuidam dos procedimentos que o médico recomendou, comentam:
- A idéia de colocar esta musica foi genial!
- Eu não tinha certeza se ia dar certo, mas não custava tentar.
- Ela adorava ouvir esta música!
-Eu li alguma coisa sobre o coma. A pessoa pode ouvir. A sensação existe, mas a pessoa não está consciente dela. Não se sabe se as informações são processadas da mesma forma como se estivesse acordada.
-A música pode ter estimulado sim, quem sabe...
- A fisioterapia durante este tempo todo também apresentou resultados significativos.
-Eu nunca pensei que ela voltaria a mover algum músculo, no entanto parece que vai conseguir.
- Eu tenho a impressão de que ela voltou a querer viver, e isto ajuda bastante.
-Quem pode entender os mistérios do inconsciente, ou da misericórdia de Deus...

A IDEA

III
Força é pois ir buscar outro caminho!
Lançar o arco de outra nova ponte
Por onde a alma passe – e um alto monte
Aonde se abre à luz o nosso ninho.

Se nos negam aqui o pão e o vinho,
Avante! É largo, imenso esse horizonte...
Não, não se fecha o mundo! E além, defronte,
E em toda parte há luz, vida e carinho!

Avante! Os mortos ficarão sepultos...
Mas os vivos que sigam, sacudindo
Como o pó da estrada os velhos cultos!

...Conquista pois sozinho o teu futuro,
Já que os celestes guias te hão deixado,
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem—proscrito rei—mendigo escuro!

Se não tens que esperar do céo (tão puro,
Mas tão cruel!) e o coração magoado
Sentes já de ilusões desenganado,
Das ilusões do antigo amor perjuro:

Ergue-te, então, na majestade estoica
D’uma vontade solitária e altiva,
N’um esforço supremo de alma heroica!

Faze um templo dos muros da cadeia,
Prendendo a imensidade eterna e viva
No circulo de luz da tua idea!
Antero de Quental - sonetos completos

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