A Rapariga das Botas Mágicas

 

A Rapariga das Botas Mágicas

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Valquiria era uma rapariga aparentemente vulgar, de estatura média, de beleza normal, com uma vida normal, apartamento e um gato (Mr Smudge de seu nome), e um trabalho que pagava as contas. Tudo aparentemente vulgar, tudo aparentemente normal, mas bastava um olhar mais atento... Os seus olhos grandes e ávidos cativavam, com a vida que neles se pressentia, todos aqueles com quem se cruzava. Tinha um sorriso fácil e luminoso, honesto! e um abraço generoso, como um chocolate quente bebido numa tarde de inverno: era assim, calorosa.
Podia ser como qualquer outra rapariga, das muitas raparigas também calorosas com quem nos cruzamos ao longo da vida. Mas ela era mais do que isso, mais do que um olhar, um sorriso e um abraço. Ela amava a vida, com tudo o que dela não se vê, mas apenas se sente. Para ela tudo era energia, tudo era conduzido por uma emoção, e pela intenção nela contida, quase palpável no ar que se respira entre as pessoas cujos destinos se cruzam. Valquiria procurava obsessivamente a vida em todos os seus sentidos: procurava a vida nas vidas já passadas, procurava nas cartas a vida que já estava escrita, e via refletido nos cristais o seu coração, e por vezes, o dos outros também.
Era amante de histórias e lendas, de livros e magias, e de dias ainda por adivinhar...
E entre as cartas e cristais, e uma banal rotina diária, feita de trabalho e diversão, e Mr Smudge a ronronar, tinha um segredo para iluminar os dias em que ela própria se sentia menos luminosa: um par de botas mágicas! Cada vez que as calçava as nuvens organizavam-se numa azáfama para dar espaço à luz que lhe fazia falta e, de súbito, um dia de inverno transformava-se num dia de sol, alterando a ordem natural das coisas.
Tinha as botas desde o dia em que percebera que, quando a tristeza se abatia sobre ela, sem razão aparente, o céu escurecia também, tornando-a assim mais triste ainda.
E então, nesse mesmo dia, entrou numa sapataria, resignada com a ideia de ter que comprar um par de botas para uma estação que prometia mau tempo. Mas as botas escolheram-na a ela. Estavam a um canto, como que escondidas de clientes indesejados e indiferentes ao tempo. Não eram as botas mais bonitas que já vira, nem aquelas que eventualmente escolheria para si, mas sentiu-se impelida a experimentá-las. Então, nesse momento em que o pé entrou na bota feita à sua medida, o céu abriu-se numa ânsia de sol. Decidiu comprá-las, o coração feliz pela luz que se manifestava, e saiu da loja com elas calçadas: começava uma relação mágica!
Ao longo dos anos as botas tornaram-se uma obsessão para Valquiria, sendo um bem precioso com o qual controlava a meteorologia da sua alma, recusando-se a viver com dias cinzentos e chuvosos, mantendo-se numa alegria permanente que contagiava todos à sua volta, como uma musa inspiradora das boas energias.
Até que um dia, o dia em que saiu de casa a correr, deixando para trás um Mr Smudge de alma sossegada e indiferente à cor do dia, enrolado no sofá, o inesperado aconteceu: a chuva cantava numa cadência ritmada, como que em provocação e, a meio do caminho, Valquiria sentiu água nos pés, como um rio que galopa as margens e invade terreno seco. Espantada, estacou no meio da rua, indiferente ao cabelo ensopado com a água que teimava em não parar de cair, e olhou para baixo, quase a medo. As botas estavam abertas à frente, como se tivessem uma boca escancarada em espanto, num mudo grito de revolta, como que dizendo “Cansei-me!”...
Ficou parada, sentindo o pânico a espalhar-se lentamente pela sua corrente sanguínea, os braços pendentes ao longo do corpo, as gotas de água vertendo pela ponta dos seus dedos agora tristes, uma tristeza que nem as cartas ou os sonhos lhe tinham revelado...
Lentamente ergueu o rosto e olhou o céu escuro e choroso. Estava muda de espanto, sem agora poder controlar o que sentia...
Fechou os olhos e todo o ruído à sua volta ficou reduzido ao som da água a salpicar o chão que pisava, e ao som do bater do seu coração, ressoando nos seus ouvidos e na sua cabeça... Há quanto tempo não sentia e ouvia esta sintonia, esta simbiose da sua tristeza com a da mãe Natureza? Ergueu os braços e abriu as mãos, sorrindo num instinto. Era a única alma parada à chuva, no meio da rua. Manteve o sorriso sem o perceber, e sorveu as lágrimas que o céu lhe enviava. Sentiu, então, o rosto quente no meio daquela tarde de inverno, e levou as mãos aos olhos: chorava tanto como o céu. Faziam-no em sintonia, num lavar de almas que não sabiam, até àquele momento, que tanta falta lhes fazia...
Voltou a olhar as botas. Estavam ainda de boca aberta, como se tivessem respirado pela última vez. Agora, sem magia, eram apenas um par de botas velhas e feias...
Valquiria sorriu novamente, e sentiu que o seu peito estava leve, tão mais leve quanto mais chorava. O dia continuava escuro, e a chuva continuava a cair, parecendo cantar nas pedras da rua uma canção de liberdade; a ordem natural das coisas estava restabelecida! Até Mr Smudge, naquele exacto momento, deitado no sofá, ronronou de alívio e enroscou-se mais em si mesmo, com que pressentindo a harmonia.
Valquiria percebeu então, naquele mágico instante, que nada disso importava, a ausência da luz, a chuva, o cinzento...sabia agora que carregava o sol consigo, independentemente do inverno cá fora, e não era por chorarem, ela e o céu, que o verão acabava. Afinal, não fazia mal deixar a tristeza falar!
E que, tal como natureza chora para se renovar, também ela precisava desses dias de chuva: a magia que procurava obsessivamente não estava afinal nas botas que calçava, estava era dentro de si mesma.

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as botas que calçava

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