carlos preto

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Data de Nascimento

24/10/1952

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País

Sobre mim

Sou reformado, passo as horas entre as couves e as galinhas. Leio muito do que os outros escrevem e também me perco e reencontro entre as palavras que são minhas.

Por exemplo:

Escrevo porque sim, e porque não? Se a palavra toma a decisão de ser revelada
Porque lhe apetece de dia e quando anoitece, sem hora nem data anunciada
Escrevo por isto e por aquilo, falo do Tejo e do Nilo, de quase nada e de quase tudo
Cada letra é uma espada cuja lâmina, de tão afiada, trespassa a folha branca onde me escudo

Biografia

No passado dia 22/7/2009, recebi, orgulhoso, o documento que atesta a equivalência dos meus conhecimentos e da experiência de uma vida de 56 anos, ao 12.º ano.
Ambos, os conhecimentos e a experiência, foram sintetizados num portfólio reflexivo da aprendizagem que, foi alvo de uma avaliação, iniciada desde a sua génese, em finais Novembro de 2008, contínua e continuada durante os sete meses de gestação e, finalmente, consolidada, quando foi alvo de uma sessão de júri, composta por todas as formadoras de RVCC e por um avaliador externo (o Professor José Frazão), que entenderam manifestar-me a excelência, quer do conteúdo, quer da forma, tendo-me atribuído a certificação em todas as Unidades de Competência.
Não vou referir aqui os elogios que ouvi. Menciono apenas a expressão que mais vezes foi repetida pelas docentes que me apoiaram na concepção e intervieram na apreciação final: “Como é que uma pessoa com os saberes que evidencia e, escrevendo como escreve, está desempregado?”
É verdade que se trata de uma patologia social de cariz pandémico. Não sou, por isso, portador de uma maleita rara. Licenciados ou serralheiros, doutorados ou operários, costureiras e engenheiros, todos, muitos, demasiados, são os números frios de uma realidade assustadora.
Verdade inconveniente para os políticos que governam, mentira conveniente para os, também eles, desempregados do poder, dramática para muitos dos que elegeram os primeiros e para outros tantos que gostariam de experimentar as soluções preconizadas pelos segundos, resulta, sobretudo, da má relação com o dinheiro dos poucos que detêm a sua maior parte. Sobretudo da voracidade com que pretendem multiplicá-lo, especulando, sem conceber formas produtivamente sustentáveis e ambientalmente equilibradas, de o dividir.
Quando me inscrevi no CNO da EB23 IV Conde de Ourém, ainda estava a trabalhar. Fantasiei a obtenção deste reconhecimento, como trampolim para uma situação profissional diferente da que detinha e detestava. Engatar o tubo, enrolar o tubo, cintar o rolo, tirá-lo do enrolador, colocá-lo na palete. Engatar, enrolar, cintar, retirar e colocar na palete… Em ciclos que se eternizavam no espaço de segundos com 60 minutos, em horas que demoravam séculos a passar. Entrar às 8, sair de 4, entrar às 4, largar à meia-noite, começar à meia-noite a trocar as voltas ao sono e à vida, para, às 8, meio adormecido, pegar no carro e, entre beliscões e palmadas nas pernas, tentar a tangente ao lar onde me esperam a mulher e os filhos que tenho de levar ao trabalho e à escola, e só depois, regressar a casa para descansar o corpo, porque a cabeça teima em não me deixar dormir, do dia para a noite e o trabalho persiste em não mo deixar fazer, da noite para o dia.
O primeiro aviso, que foi também o primeiro incentivo para procurar a mudança, surgiu dois meses antes. Dez minutos depois de sair da fábrica, depois de cumprido o, desoladoramente comprido, turno da noite, dou por mim a acordar, de uma soneca de 3 ou 4 segundos dentro do meu carro que, em piloto automático, percorre uma zona de estacionamento junto aos Correios de Caxarias. O gelo que me desceu pela espinha, mormente ao lembrar-me dos carros que costumam estar ali estacionados e das pessoas que, por ali, circulam a caminho da caixa multibanco, conseguiu espantar-me a dormência e estampar-me os fantasmas da demência nos pesadelos das noites que se lhe seguiram. Três semanas mais tarde, a 300 metros de casa, abro os olhos mesmo a tempo de lavrar algumas silvas da berma, antes de regressar à estrada, tendo daí resultado, apenas, alguns arranhões na pintura e outros tantos na alma.
O desconforto de um trabalho que detestava ganhou um novo aliado, o pânico que, em crescendo me apertava o peito numa espécie de torno à medida que se perspectivava, a inevitabilidade do cumprimento de mais quatro dias do horário temido. Que os cafés, a partir das 5 da manhã, o rádio em altos berros, pelo caminho, o frio de Dezembro a entrar pela janela aberta, os beliscões e as asneirolas que se lhes sucederam, permitiram cumprir, sem sobressaltos.
E estava prestes a chegar o alívio das férias de Natal, 15 dias de distância entre mim e os polímeros de Nargoplás, de Ambiente TP ou FP, longe da nave imensa e da banda sonora que as quatro extrusoras teimam em gritar, afastado do enrolador que, num movimento hipnótico, me entuba e confunde o juízo, com o sono a coincidir na noite e na cama, e o subsídio de Natal a conferir aos sonhos dos miúdos os tons alegres de uma realidade que sabe bem concretizar.
Escondi, da minha mulher e dos meus filhos, o medo que julguei ser capaz de debelar. Que diabo, já tinha conseguido aguentar um ano, e, por eles, estava determinado a transformar o suplício num hábito.
Determinação que se esfumou, numa segunda-feira, 26 de Janeiro, ultimo dos quatro dias em que as noites travestidas, culminavam numa luta desesperada contra a sonolência. Às 8,15, quando faltavam apenas 5 minutos para os beijar, a manhã chuvosa e triste, apagou-se. Acordei, 100 metros depois, com os solavancos que o carro sofria, já fora do alcatrão, do lado contrário ao sentido de marcha que deveria prosseguir. Um eucalipto em forma de tridente, avançava para mim como um amigo de longa data que não me visse há muito tempo. Tentei evitar o embate, mas apenas consegui desviar a frente. Durante alguns segundos que me pareceram uma eternidade, o bloco noticioso da TSF confundiu-se com o silvo dos airbags, com os cacos dos vidros das janelas a misturarem-se na chuva que caía, no plástico partido e no metal rasgado, transformando o veículo num puzzle encharcado que, um mês mais tarde, depois de montado, me revelou, preto assustador no branco desmaiado da factura, o preço desmesurado de uma sesta diminuta: 16 000,00 €.
O médico de família, pôs um nome ao meu problema, que identificou como neurológico e crónico: narcolepsia. Provocada pelas mudanças súbitas do ritmo vigília-sono, pelas alterações do horário que despertam insónias, pelas altas temperaturas, pelas actividades rotineiras em complexos fechados e pelo stress acumulado pela verificação das condicionantes, anteriormente, descritas.
Já então se faziam sentir os tentáculos da crise na cadência de fabrico. Dos quatro grupos de máquinas, dois estavam em ponto morto e os restantes produziam para stock, em câmara lenta. Percebiam-se, nas entrelinhas das conversas, palavras como “férias antecipadas” e “despedimentos”.
Por isso, não foi, de todo, inesperada, a reacção da gerência quando, um mês depois do incidente, lhes solicitei uma alternativa aos turnos, justificada pelo relatório que o clínico elaborou. Não era possível enquadrarem um pré-sexagenário, com o 9.º ano do liceu, numa estrutura de trabalho que, iria a breve trecho, necessitar de reduzir os custos de laboração ou, até, eventualmente, de suspendê-la.
Restava-me a saída, de mansinho, 14 meses depois de ter tentado um regresso às origens proletárias, reiniciando o meu disco rígido, na expectativa de que o meu processador aguentasse as intermitências, que as opções de vida, umas vezes, bem desfeitas, outras, mal feitas, nos impõem. Com a dignidade possível de uma rescisão simpática para ambas as partes, cujo único, e grande, desconforto, se prende com o facto de nada fazer, sendo talvez justo, mas frustrante, o facto de, quase nada receber.
Se morresse hoje, na curva descendente dos 56 para os 57, os comentários da família, dos amigos, dos vizinhos, lamentariam, no sussurro dorido que o desenlace provoca, a minha juventude e a precocidade da minha partida.” – Era tão novo, ainda”. Dir-se-ia, na despedida.
Mas ao procurar hoje, um trabalho, na curva ascendente dos 56 para os 60, os comentários, depois da despedida, lamentam o desplante e a esclerose da tentativa. – Reforma! Transparece na surdina do “…adeus, nós depois telefonamos”.
Sei contar, pelo menos até 419, número mágico que baliza o subsídio (ou suicídio) que alivia a minha falta de ocupação. Sei fazer operações aritméticas como multiplicar e somar, mas estou muito mais à-vontade nas divisões e nas de subtrair, mercê da minha actual condição. Sei ler, falar e escrever, perdoem-me a presunção, muito bem, na língua da pátria onde, para mal dos meus pecados, nasci e, da qual, nunca saí. Mas também sei fazê-lo, fluentemente, em Inglês e Francês.
Domino tão bem os computadores, como a caneta e o papel. Tenho profundos conhecimentos de informática, na perspectiva do utilizador, e utilizo a informática na perspectiva do conhecimento. Dou-me muito bem com o hardware e tenho excelentes relações com um leque diversificado e actual de software. Folhas de cálculo, processador de texto, bases de dados, programação e multimédia, são extensões do meu quotidiano de trabalho e de lazer, dos últimos 25 anos. Mas, tal como o copo, também eu, para trabalhar, estou meio velho, embora, para a reforma, esteja meio novo.
Li mais de 10 000 livros e sei consertar torneiras que pingam. Escrevo poesia e prosa e faço reparações de electricidade sem provocar curto-circuitos ou choques tecnológicos. Até sei passar a ferro e fazer gestão de stocks. E autopropus-me para um doutoramento “honoris causa” em facturação e cozinha. Contudo sou “um senhor de meia-idade que está ali na recepção, a pedir emprego”, um candidato fora de prazo e dos prazos que limitam o nosso presente e nos condenam futuro.
Sei, porque já o sabia, e porque pessoas cuja preparação académica lho permite ajuizar, mo disseram, que possuo qualidades, aptidões e criatividade para o desempenho eficaz e producente de um conjunto de actividades, do foro administrativo, ou na área da cultura, que poderiam constituir uma mais-valia para quem delas necessitasse, mas, quer porque nem sempre, no meu percurso de vida, fiz as melhores opções, quer porque a vida, nem sempre mas proporcionou, sou, neste momento, um feliz papel selado, que certifica o êxito da frequência de RVCC, num CNO, avalizado pelo ME, um subaproveitado e miseravelmente bem pago TEPE (Técnico Especializado na Procura de Emprego) que, à semelhança de tantos outros, peregrino quinzenalmente o “Serviço Local da Segurança Social”, respondo cordatamente às notificações do Centro de Emprego e castigo, duas vezes por mês, a paciência dos diferentes e, cada vez, menos, operadores económicos da região, tentando obter a assinatura e o carimbo que atestem o meu denodo na demanda de uma ocupação e impeçam a suspensão do pagamento da misericordiosa subvenção.
Tento dar uso aos dias, cuidando da horta e do jardim. E dos filhos, flores que não conseguimos semear no nosso quintal, mas que o desleixo e irresponsabilidade de quem os gerou, produziram no nosso terreno infértil uma enxertia feliz que tentamos manter, com o carinho e amor de que dispomos e lhes damos em quantidades que nos colocam muito acima do limiar de pobreza onde o nosso rendimento mensal, inferior a 1 000 €, nos teima em colocar.
Eles sabem e compreendem, até porque também testemunharam o número e o grau dos adjectivos que qualificaram o meu trabalho e são duas crianças de uma sensibilidade extraordinária, com uma imensa capacidade de amar e de nos ajudar a suportar o desalento.
A obtenção da equivalência, os artigos que vou escrevendo para o Jornal de Ourém, para o Jornal de Leiria e para o blogue da Biblioteca da escola, o livro que já comecei e que vou, finalmente, ser capaz de acabar, são partes de um todo com que pretendo explicar-lhes (e consciencializar-me) da diferença entre desempregado e inútil, apesar do voluntarismo destas actividades e, delas, não resultar qualquer acréscimo de cariz pecuniário, para o bem-estar da nossa família. Apenas servem para dar trabalho aos meus neurónios e estimular a minha auto-estima.
É, por isso, que continuo a esbracejar, numa tentativa de não naufragar com a praia à vista, na esperança de que a ondulação que provoco, possa fazer pender para o meu lado a atenção de alguém que, sabendo olhar, saiba e possa também, entender.

19 de Agosto de 2009

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Conteúdo

 

Para todos os que vivem entre nós, e morrem sós…

Como preencho o pesado silêncio de cada um dos meus dias
Repletos de histórias tão dispersas como dispersas são as esperanças,

Género: 
 

Quem sabe

Quem sabe de ti tão longe, e eu aqui desperto na noite que, na urgência de ser noite, depressa se tornou dia

Género: 
 

Resort da Caparica

De um lado o azul desbotado e erudito, com um friso de ferrugem junto ao betão desarmado

Nas janelas, predomina o “gótico” e uma tendência surrealista para a fuga à esquadria

Género: 
 

Ouro e prata

A música tem os acordes suaves das ondas e o canto doce que só as sereias sabem entoar

A areia pinta-se do ouro que o sol derrama, e a água é a cama de prata onde ele vai adormecer

Género: 
 

Os silêncios de um adeus

Pé ante pé, nem dei por isso, sei apenas que aconteceu

A pancada no peito, ali onde a dor, de súbito, gelada se insinua

Género: 
 

Aguarela

O Zêzere corre, sereno, singular aguarela entre as fragas, numa estranha moldura

Dois corvos traçam, no fundo azul, os passos de dança de um ritual de sedução

Género: 
 

(In)diferente

Sereno e indiferente, guardador da margem onde repousam as gaivotas, beijando a água

O olhar atento, perscruta o horizonte, em busca de uma tempestade que tarda em acontecer

Género: 
 

(In)diferente

Género: 
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