Colossal o Oceano,

 

Colossal o Oceano,

Português

 

De colossal o oceano,
Imortal o sono,
Os sentidos belos
E a magia de todos que me inspiram; inspiraram-me
Inclusive os ventos, as tempestades, as ondas e o iodo,
De verdade minha ânsia é de naufragar no azul do mar,
Colossal o oceano, profundo.

Serei eu o lastro fundido mais fundo deposto
Quando da criação dos inquietos 
Mares deste e doutros mundos,
Imortal o sono nos rostos, profano o Mar-Morto.

Jorge Santos (07/2018)
http://namastibetpoems.blogspot.com

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Quando voltei encontrei os meus passos. Camilo Pessanha

Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a úmida areia.
A fugitiva hora, reevoquei-a,
_ Tão rediviva! nos meus olhos baços…
Olhos turvos de lágrimas contidas.
_ Mesquinhos passos, porque doidejastes
Assim transviados, e depois tornastes

Ao ponto das primeiras despedidas?
Onde fostes sem tino, ao vento vário,
Em redor, como as aves num aviário,
Até que a asita fofa lhes faleça…
Toda essa extensa pista _ para quê?
Se há de vir apagar-vos a maré,
Com as do novo rasto que começa…

Camilo Pessanha, in ‘Clepsidra’

Caminho. Camilo Pessanha.

I

Tenho sonhos cruéis; n’alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente…
Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!…
Porque a dor, esta falta d_harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d’agora,
Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
d Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei…
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!… Foi no entanto
Que choramos a dor de cada um…
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

III

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada…
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.
Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada…
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!…
Cada um por seu lado!… Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!…
Deixai-me chorar mais e beber mais,
Perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar d encher a alma.

Camilo Pessanha,  ‘Clepsidra’

Frederico Pedreira sobre «O Sangue das Flores»,

Frederico Pedreira sobre «O Sangue das Flores», de Rute Castro (Artefacto)

 

 

Texto lido na apresentação do livro

 

 
No outro dia, perguntaram-me para que serve a poesia. Eu disse que ela servia para nos livrarmos, nem que por uns segundos valentes, da noção de utilidade. E de noções que lhe são parasitas, como as de transmitir uma mensagem, ou a de que essa mensagem contenha em si um certo grau de razoabilidade. Acho que comunicaralguma coisa é um incidente ocasional no poema. Quando pensamos em linguagem, pensamos em comunicar. Mas a poesia é sobretudo um gesto. Esse gesto pode estar representado na mão que mendiga, na mão que acena, naquela que esmurra, etc. A coloração que se atribui a esse gesto é, para o efeito, indiferente. Falo de coloração no sentido de falar de linguagem, do abc da poesia. O abc da poesia não é feito para comunicar, no sentido em que se comunicam coisas como: “este livro é sobre a guerra-colonial portuguesa”, ou “o PIB aumentou”, ou “este frango está frio”. A poesia não diz propriamente coisas. Ela atribui uma luz especial à ginástica emotiva de quem quer dizer certas coisas. A linguagem na poesia, no contexto da comunicação, é um fundo perdido. O mesmo já não se pode dizer do estalo da língua. Quando tentamos perceber um surdo-mudo, ouvimos grunhidos e esse estalo da língua. O mesmo se passa quando uma pessoa nos fala em modos emocionalmente inflacionados: quando essa pessoa está furiosa ou quando é picada pelo êxtase, ou quando num certo dia acordou tantos degraus abaixo da cama (e portanto de um nível socialmente aceitável de andar por aqui) que só sabe arrastar a boca por mesas de café e descansar a cabeça por onde calha. Para mim, a poesia é o esboço possível destes estados de alerta. Que mensagem se pode esperar de uma pessoa que tem, no momento em que é olhada, o cano de uma arma apontado à cabeça? Ou que informação importante, no mundo das coisas importantes, se pode sacar de uma pessoa que anda aos pulos por ter agarrado um momento a que por decoro os académicos chamam epifania,  mas que é só a excitação de ter agarrado por instantes o eu escorregadio dentro das águas do hábito, e de o ter olhado nos olhos, no sofrimento de se debater fora dessas águas? A poesia também é isto: vermos o peixe moribundo no convés, contorcermo-nos com ele antes de o atirarmos ao mar. É tão sangrento que não o podemos comer. Fazer poemas é descrever os segundos em que olhámos o nosso próprio jogo de contorção. Ninguém pode viver só disto. Já foi tentado, alguns deram um tiro na cabeça, outros afogaram-se, foram atrás do seu peixe. Ninguém pode viver só disto, mas de vez em quando escrevem-se livros. E alguns até são de poesia.
 

Não me faz grande sentido falar de poesia como quem pergunta no restaurante, de cotovelos apoiados no balcão: o cozido hoje está bom? O livro da Rute tem a propriedade fundamental do que se quer na poesia: desacelerar o tempo, esse tempo balofo que precisa dos certificados de qualidade dos falsos mestres. E é um livro difícil, não propriamente pela linguagem a que dá uso, mas pelo tipo de uso que dá à linguagem. Como na poesia que interessa, a linguagem neste livro está de férias. E digo isto no melhor dos sentidos, que é o de afastar por definição a ideia de utilidade, a ideia de veicular uma mensagem no modo particular da poesia. O poema da Rute não é redondo, o focinho não encontra a cauda, e por isso os olhos do bicho andam desvairados, perdidos, e é esse o encanto d’O Sangue das Flores. Ouvimos uma conversa íntima da Rute consigo mesma, e essa conversa bifurca em dois sentidos: um é o da candura, daquela que vem das crianças que brincam sozinhas durante horas e só desistem quando são chamadas pela segunda vez para dentro de casa; o outro é o de uma tranquilidade, de roupagens quase transparentes, face à violência de que o mundo é capaz em doses diárias. Ouvimos esta conversa íntima como se atrás de uma porta fechada, e compadecemo-nos. É como vermos uma pessoa a jantar sozinha num restaurante. Vermos o que faz enquanto o prato não chega, o que faz com as mãos, a coragem que mostra em enxotar o rumor do mundo. Também já disse isto noutro sítio, e, ao falar deste livro, o sentido do que disse encontra uma morada digna: o bom poema é aquele que nos deixa ouvir uma conversa que o poeta tem consigo mesmo. E esta é uma conversa de surdos, claro. Em contrapartida, quem escreve sentindo-se observado nunca se irá despir.
 

A capa deste livro é alegórica: metade mulher, metade voo. Quem diz voo diz sonho, e um sonho só se constrói sobre um pano-de-fundo real. Isto é trivial. O que importa no livro da Rute é uma vontade, uma vontade de contornos muito delicados e ponderados, de reabilitar o mundo através da beleza possível que sobrevive nas coisas, nos lugares e seus habitantes. Quando falo em lugares, falo sobretudo nos lugares da memória. É sabido: a poesia é um corpo vivo que reinventa a sua própria memória. E então é aqui que a voz da Rute entra com uma frescura diferente: O Sangue das Flores apresenta-se-me como a ventilação do desastre. Aqui faço uma pequeníssima e talvez escusada ilustração: “[…] aqui estamos neste desabar/de pele, neste romper alegorias, nos ternos incêndios da manhã, // é meia-noite, talvez hoje anjos recaiam sobre a minha praga, esta mão/que ainda balouça o fim do mundo.[p.29]” Quando li este livro, lembrei-me imediatamente de um exercício. Imagine-se entrarmos numa casa abandonada, de madeiras podres e nuvens de pó, e, sem tocar em nada do que é memória nessa casa, pormo-nos a decorá-la com flores, sedas, coisas de uma delicadeza superlativa. Não se mexe na disposição das coisas, no rumo selvagem da memória. É proibido. Não podemos sequer enxotá-la. Quando li O Sangue das Flores percebi que a Rute trabalhou sobre este tipo de reconhecimento das coisas, e apercebi-me de que ela trata dos escombros como se tenta sossegar a dor de uma asa partida. É bem mais difícil fazer isto do que deitar tudo abaixo e construir de novo. A suspensão do desastre envolve um exercício de coragem, no olhar que segue inquisitivo, a medo, à procura de um reconhecimento do eu nas coisas antigas. Escreve a Rute: “talvez sentir melhor seja um pouco mais de coragem, / verificar por baixo as secreções do que ainda deita, sinal de que mexe, / mesmo azedo, quase passado.” [p. 50] Plantar coisas num terreno minado é possível, claro, e o factor de regeneração da natureza, de costas voltadas para o homem, está presente neste livro. Leia-se assim os versos: “e a terra redescobre, talvez, todos os dias o que se quer encontrar/e diz-nos como não ouvimos.” [p. 43] A memória cicatriza, isto é também trivial. O que já não é trivial é a diferença operada na mente de quem interiorizou um certo grau de violência e usou essa violência para voltar a estranhar o mundo. Digo “estranhar” num sentido absolutamente positivo e saudável, como a personagem Miranda, em The Tempest, de Shakespeare, estranha o mundo de olhos a brilhar, ao ver o seu “admirável mundo novo”. Sobretudo porque é novo para si. O que a Rute consegue através da força de muitos dos seus versos é uma regeneração da sua paisagem interior, e o soro dessa beleza reclamada é encontrado num exercício de respiração boca a boca com a morte. Ou pelo menos com as várias perspectivas sobre a morte. Um encontro muito sério da voz da Rute consigo mesma: é isso que me atrai mais neste livro. E é isso que me parece jogar a seu favor, porque lhe transforma a percepção do mundo. E a nós, aos leitores, dá-nos que fazer com a espécie de candura em suspensão contínua dos seus versos. O que é feio é para se ver, ou melhor, reconhecer. E este tipo de reconhecimento, que envolve uma participação na forma como o mundo se nos apresenta, em vez de uma mera contemplação, exige também responsabilidade, e com ela um certo grau de decoro. Diz a Rute, ao fechar o livro: “tens a serpente no colo e acarinhas o veneno, / as feridas secam e os rostos também / e é feio apontar.” [p. 51]
 

É, ou pelo menos para mim sempre foi, extremamente irritante quando dizem: “levas-te demasiado a sério”. O que me apetece responder é: “mas como é que é possível não me levar demasiado a sério?” E onde é que há espaço para a palavra “demasiado” neste contexto? A poesia é uma conversa de surdos, ou de malucos, é à escolha do freguês. O leitor entra nesta conversa a meio. Ou fica a ouvir, de costas, de preferência, como se faz nos cafés, ou vai-se embora, entretido com os seus passinhos. Eu levo-me a sério, não demasiado porque o demasiado não tem aqui lugar, e acho que a Rute também se leva a sério. E só com esta atitude responsável perante a escrita é que se pode dizer: eu escrevo. Não é a poesia-laracha que me interessa. Não é a poesia com a sebenta da faculdade ao lado que me interessa. Muito menos a poesia de cuspidores de fogo do Chiado ou a poesia de versinho a condizer. Cada pessoa tem um embate sério, seríssimo, prometido consigo mesma. Do rebentar desse embate, dessas feridas, vem o sangue, e também há flores, mas no final, estendidos nessa espécie de ringue ontológico, não podemos ter só o sangue ou só as flores à nossa volta. Coragem, coragem e mais coragem. É o que se exige. E que todos os que escrevem se levem estupidamente a sério. Que não se invente quando não se encontra o pulso, todos temos as nossas pequenas mortes; que não se vampirizem mortos quando andamos de nariz entupido e não cheiramos o nosso próprio sangue. Ele há de cheirar. E o trabalho da Rute é lento, paciente, e chegou, e não vampiriza, não repete, até porque não se pode repetir a respiração particular de uma vida.  

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