História de um cogumelo bem conservado!

 

História de um cogumelo bem conservado!

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História de um cogumelo bem conservado!

Como é sabido, há três tipos de cogumelos diferentes, os bons, os maus e os aluados.

Os bons, bem, os bons são sempre bons.

No que diz respeito aos aluados, esses são chatos, é que persiste sempre a dúvida de quais são. É que quem os come, fica sempre sem saber se são dos bons, dos maus ou obviamente dos aluados. A pior coisa que há, é ter dúvidas nos cogumelos, é que a dúvida dá-lhes mau sabor de amargar.

Quanto aos maus, muita coisa certamente haveria para dizer, mas é muito difícil, é que quem os comeu já cá não está. Por isso a melhor coisa, como em quase tudo na vida, é deixar isso da apanha, para quem verdadeiramente sabe. Para mim, apanhá-los é na cesta, com o certificado do peito, que é como quem diz, daquelas amizades entranhadas.

Apresentados que estão, importa agora prepará-los, é que isto dos cogumelos tem muito que se lhe diga. É que nem sempre os há, dos tais bons e pior do que isso, é que mesmo quando os deveria haver, o raio do tempo, que devia ser o deles, o não é. Por isso a melhor coisa é depois de apanhados na cesta, e devidamente certificados, com o tal certificado do peito, é trata-los bem. Um cogumelo bem tratado é meio caminho aviado! Toda a gente sabe disso.

Apesar do que mais para aí há é maneiras de os comer, ou engolir, quando bem não saem, ou então guardam-se. E é esta parte do guardar, que é a história que vos vou contar.

Contrariamente ao que se diz, o cogumelo é um fungo marinho. Tal teoria não se deve propriamente ao meio, mas mais ao conteúdo, ou seja, é um fungo de conteúdo marinho.

Também é do conhecimento geral, que os cogumelos não sabem nadar, apesar de saberem boiar, mas isso do boiar, não lhes confere capacidades de deslocação e um cogumelo gosta de viajar. Por isso a primeira viagem a dar ao cogumelo é sugerir o meio, o aquático, que é como quem diz, da cesta para o banho, que isto só lhes vai avivar a memória e a memória dá outro sabor.

Após lavados e esfregados, quando é caso disso, devemos acondicioná-los com jeitinho num tacho e aquecer-lhes os pés, sem pressas, porque eles assim, sem meio, já não vão longe. Quando se diz, “sem meio”, quer-se dizer sem água, sem o tal meio aquático, que ao fim ao cabo é o deles, aliás sem meio e sem mesmo mais nada!

É que esta teoria de que os cogumelos são fungos de conteúdo marinho, é mesmo verdade e a prova está, que eles ao sentirem o calor nos pés, libertam todo o seu conteúdo, que é marinho, cá para fora. Aqui é vê-los a boiar no conteúdo e parecem mesmo cogumelos a boiar no conteúdo, sossegadinhos, boiando, sem pressas.

Qualquer conteúdo com o tempo, esgota-se e este em particular, mas, a particularidade deste é que vai-se o conteúdo, mas fica o sumo desse conteúdo. Isto à primeira vista até parece que não faz sentido, mas faz, garanto eu!

Desprovidos do conteúdo, mas providos do sumo desse conteúdo, como tal bem melhores, e com o tacho seco, é retirá-los deste suposto suplicio, que afinal não o é e deixa-los repousar que o dia tem sido de grande alvoroço.

Noutro tacho, ou no mesmo, tanto faz, largar o azeite ao lume, sem mínguas, mas também sem estragar, que isto do azeite devemos-lhe muita afeição. O azeite gosta de alhos e os cogumelos também, mas antes dos alhos, que esses já lá vamos, a melhor coisa é juntar os poses, que é como quem diz a pimenta das bolas pretas, o cravinho, para nos lembrar o Abril do nosso contentamento e o louro. Tudo inteiro. Este bocadinho que eles lá passam no azeite, dás-lhes um calor que os fazem suar óleos que nos fazem imensa falta.

Suados que estão, é a vez dos alhos, estes em particular, querem-se grandes, até há, quem a pele a não tire, embora assim os tenhamos de esborrachar, sem os separar, que alhos separados esborrachados é coisa que no tacho não deve entrar.

Estes alhos, querem-se brancos, antes e após. No azeite só o suficiente para lhe dar sabor, por isso nem muito quente deve estar, que é como quem diz: “se não é para os pôr a estalar, então não vale a pena gastar!” E por aqui temos que ficar, é que se não, nem a rima se presenteava.

Após o azeite saber a alho, eis que lhes temos de juntar os bons, os tais sem conteúdo, mas com o sumo do conteúdo, e deixa-los ali fervilhar, calmamente. Para não nos deixarmos cochilar, com tanta calma, podemo-nos entreter a temperar, com sal e pimenta, a tal das bolas pretas, mas acabadinha de moer. Há mesmo cozinheiros de cogumelos bons, daqueles cozinheiros valentes, que lhes juntam a alma. Mas diga-se que isto da alma é só para dar um certo ar de coisa complexa e dedicada, porque todos nós sabemos que esta alma é vermelha e nos limpa as entranhas se formos dos mais descuidados, mas isso não somos nós, claro, descuidados, quero dizer. Resumindo, uma malagueta faz muita falta, é o que se queria mesmo falar.

Obviamente, que com o tempo a passar, os cogumelos bons, já devem estar. Apurados, calmamente. É pois altura de os espevitar, subir a temperatura, fazer o verão chegar. Quando eles, agora sim, quiserem começar a estalar, é altura de os borrifar, com vinagre branco, generosamente. Quando se diz generosamente, é mesmo generosamente, se não os cogumelos não são estes, e até os bons se podem tornar maus, sei lá!

Este vinagre, que de generoso não tem nada, porque o vinho nos fez perder, é deixa-lo abalar e o melhor é nem o cheirar, porque não iriamos aguentar.

Cozinhados e arrefecidos, é altura de os guardar, para mais tarde os provar. Deveremos arranjar um frasco, te tampa rolhada e bem apertada. Deitemos os puros, os tais certificados, com o tal certificado do peito, para dentro do frasco, não convém atabafar porque com azeite os temos de tapar. Aqui, teremos de arranjar a coragem do azeite desperdiçar, porque o frasco, o tal rolhado, com os puros lá dentro desatabafados, teremos por completo de os tapar.

Rolhado o frasco e bem apertado, terminamos a história. Lá dentro os puros ficarão adormecidos, até ao dia em que reunidas as devidas condições, que cada um determinar, os traremos de novo à vida, que é como quem diz, de os trazer para dentro da barriga!

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